Acreditam muitos que andamos sempre a escrever o mesmo texto. Deus, quando resolveu construir-nos do modo como achou por bem fazê-lo (e não à sua imagem e semelhança, como alguns teimam ter sido), deu a cada um de nós um nome e um discurso. O nome deu-no-lo Ele por interpostas pessoas (os pais, os padrinhos, as amantes, a autoridade tributária, etc.); o discurso foi-nos soprado por Ele para dentro dos nossos miolos e lá ficou a ditar e a controlar as nossas vidas, mesmo as dos que nunca escreveram uma palavra além do próprio nome. Nestes casos, o discurso está implícito, o texto está imanente. E está-o a tal ponto que essas pessoas julgam frequentemente não o possuir, e calam-se amiúde.
Cada um de nós tem, portanto, um único texto discursivo dentro de si, um só, o seu, e não o pode reeditar ou substituir. Os que acreditam tê-o julgam-se, de um modo geral, felizes possuidores de um atavio exuberante e inédito e escrevem-no por aí, em livros, blogues, pedras e árvores ou sibilam-no fortemente nas nossas orelhas, nas escolas, no vento. Repetidamente, até à alergia colectiva. Por mais que tentem disfarçá-lo, vê-se logo que é sempre o mesmo, apesar das indumentárias de carnaval ou de semana santa com que o ornamentam. Está neste caso este vosso indefectível amigo.
O discurso é um adereço tão íntimo como as cuecas de cada um. Não devíamos evidenciá-lo tanto, pendurá-lo tão patente no estendal da nossa natural jactância*.
É que, olhando com atenção, qualquer um vê que está mal lavado.
*Este recurso estilístico foi-me ditado por ter acabado mesmo agora de estender a roupa.
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